O Grande Pecado – parte 1

Extraído do Livro: Mero Cristianismo, C.S. Lewis, páginas 126-132, Editora Quadrante.  

Chegamos agora àquela parte da moral cristã que a distingue mais nitidamente de todas as outras doutrinas morais. Há um vício de que ninguém está inteiramente livre neste mundo, que todos detestam profundamente quando o encontram nos outros, e do qual praticamente ninguém que não seja cristão se considera culpado. Já ouvi gente admitir que tem mau gênio, ou que perde a cabeça por mulheres ou bebida, ou mesmo que é covarde, mas penso que nunca encontrei ninguém que se acusasse deste outro vício, a menos que fosse cristão. Ao mesmo tempo, só muito raramente encontrei entre os não-cristãos alguém que demonstrasse a menor compreensão para com este vício nos outros. Não há defeito que nos torne mais impopulares, nem fraqueza que nos torne mais incapazes de detectá-la em nós mesmos. E quanto mais força tiver em nós, mais nos desagradará nos outros.

O vício a que me refiro é o orgulho ou amor-próprio, e a virtude que se opõe a ele chama-se, segundo a moral cristã, humildade. O leitor estará lembrado de que, ao falarmos da moral sexual, eu o preveni de que não era ali que se encontrava o centro da moral cristã. É aqui que chegamos ao centro. De acordo com os mestres cristãos, o vício essencial, o mal supremo, é o orgulho. Em comparação com ele, a incontinência sexual, a ira, a cobiça, a embriaguez e coisas do gênero não passam de picadas de mosquito. Foi por orgulho que o demônio se tornou demônio. É o orgulho que conduz o homem a todos os outros vícios. Trata-se do estado de alma mais completamente anti-Deus que pode haver.

Isto lhe parece um exagero? Se for assim, pense melhor. Acabo de dizer que, quanto mais orgulhosos formos, tanto mais nos desagradará o orgulho nos outros. Com efeito, o modo mais simples de descobrir até onde vai o nosso orgulho é perguntar-nos: “Até que ponto me desagrada que os outros façam um comentário desdenhoso a meu respeito, ou não me levem em consideração, ou se metam na minha vida, ou me tratem com modos paternalistas, ou assumam ares de importância?” A verdade é que o orgulho de cada um está sempre em competição direta com o orgulho de todos os outros. O fato de fulano de tal ser o centro das atenções numa festa só me irrita tanto porque eu é que queria ser o centro das atenções: dois bicudos não se beijam…

Vale a pena sublinhá-lo: o orgulho é essencialmente competitivo – é competitivo pela sua própria natureza -, ao passo que os outros vícios são, por assim dizer, competitivos “por acidente”. O orgulhoso não sente prazer em possuir isto ou aquilo, mas apenas em possuir mais do que o vizinho. Dizemos que as pessoas se orgulham de ser ricas, inteligentes ou bonitas, mas na verdade não é assim: as pessoas orgulham-se de ser mais ricas, mais inteligentes ou mais bonitas do que os outros. Se todos nos tornássemos igualmente ricos, inteligentes ou bonitos, já nenhum de nós teria nada de que se orgulhar. É a comparação que nos torna orgulhosos: o prazer de nos sentirmos acima dos outros. E quando o elemento de competição desaparece, também o orgulho desaparece.

É por isso que digo que se trata de um vício essencialmente competitivo, ao contrário dos outros vícios. O impulso sexual pode levar dois homens a competirem entre si, por exemplo, se ambos desejam a mesma garota; no entanto, isso é meramente acidental, porque ambos poderiam igualmente desejar garotas diferentes. O orgulhoso, porém, procurará tirar-nos a namoradinha, não por estar interessado nela, mas apenas para provar a si mesmo que é melhor do que nós. Também a cobiça pode levar as pessoas a competirem entre si, sobretudo se não houver o bastante para todos; mas o orgulhoso, mesmo que tenha conseguido juntar para si mais do que seria razoável, tentará obter ainda mais unicamente para afirmar o seu poder. Quase todos os males do mundo que se costumam atribuir à ganância ou ao egoísmo são, na verdade, em muito maior medida fruto do orgulho.

Vejamos mais de perto o caso do dinheiro. A ganância pode certamente levar um homem a querer dinheiro para ter uma casa melhor, férias de melhor qualidade, alimentos e bebidas mais finos. Mas apenas até certo ponto. Que é que leva um homem que já tem uma renda anual de, digamos, cem mil libras, a ansiar pelo dobro? Certamente não é a cobiça por mais prazeres, uma vez que cem mil libras lhe proporcionarão folgadamente tudo aquilo de que um homem realmente pode usufruir. É o orgulho: o desejo de ser mais rico do que algum outro rico, e – mais ainda – o desejo de poder. Porque é o poder que verdadeiramente satisfaz o orgulhoso: não há nada que nos faça desfrutar com mais intensidade da sensação de sermos superiores aos outros do que a possibilidade de movê-los de cá para lá como se fossem soldadinhos de chumbo.

O que é que leva uma moça bonita a espalhar angústia por onde quer que passe à base de colecionar admiradores? Certamente, não é o seu instinto sexual, porque essa espécie de mulheres costuma ser sexualmente frígida; é o orgulho. O que é que leva um líder político ou uma nação inteira a querer sempre mais e mais? Novamente, o orgulho. Repito: o orgulho é competitivo por natureza e, por isso, não se contenta nunca. Se eu for orgulhoso, enquanto houver no mundo alguém que seja mais poderoso ou mais rico ou mais inteligente do que eu, esse será meu rival e meu inimigo.

Os cristãos têm razão: é o orgulho que tem sido a principal causa de infelicidade em todas as nações e em todas as famílias desde que o mundo é mundo. Os outros vícios podem eventualmente chegar a unir as pessoas: encontraremos, por vezes, verdadeira camaradagem, brincadeiras e afabilidade entre bêbados e libertinos. O orgulho, porém, sempre traz inimizade; mais ainda, é inimizade. E não apenas inimizade entre os homens, mas inimizade entre o homem e Deus.

Em Deus, encontramos um Algo que é incomensuravelmente superior a nós em todos os sentidos. E, a menos que reconheçamos que é assim, e que reconheçamos que em comparação com Ele não somos nada, não podemos chegar a conhecê-lo de maneira nenhuma. O orgulhoso sempre olha as pessoas e as coisas de cima para baixo; ora, enquanto estivermos olhando para baixo, é claro que ao conseguiremos enxergar o que está acima de nós.

Isto levanta uma questão terrível: como pode haver pessoas que, estando a todas as luzes completamente carcomidas pelo orgulho, mesmo assim afirmem acreditar em Deus e se considerem profundamente religiosas? Receio que isso signifique que adoram um Deus imaginário. Admitem, em teoria, que não são nada diante desse Deus-fantasma, mas na verdade passam o tempo todo a imaginar que Ele está encantado com elas e as considera muito melhores do que as pessoas comuns. Ou seja, pagam dois centavos de humildade imaginária a esse ídolo, e recebem em troca uma libra de desprezo real pelos seus semelhantes. Suponho que Cristo pensava neste tipo de pessoas quando afirmou que alguns pregariam em seu Nome e em seu Nome expulsariam demônios, apenas para ouvir dEle, no fim dos tempos, que Ele nunca os conheceu (cf. Mt 7, 23).

Qualquer um de nós está sujeito a cair nesta armadilha mortal a qualquer momento. Felizmente, dispomos de um teste que nos permite detectá-la. Sempre que a nossa vida espiritual nos faça sentir que somos bons, e sobretudo que somos melhores que tal ou qual pessoa, podemos estar certos de que não estamos sob a ação de Deus, mas do demônio. A verdadeira prova de que estamos na presença de Deus é que nos esquecemos completamente de nós mesmos ou ao menos nos enxergamos como um ser minúsculo e desprezível. O melhor é esquecermo-nos inteiramente de nós.

Fim da parte um

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: