O Grande Pecado – parte 2

Extraído do Livro: Mero Cristianismo, C.S. Lewis, páginas 126-132, Editora Quadrante.  

É terrível que o pior de todos os vícios consiga infiltrar-se no próprio cerne da nossa vida espiritual. Mas é compreensível que seja assim. Os outros vícios, os menores, derivam da atuação do demônio sobre a nossa natureza animal; este vício, em contrapartida, não provém de forma alguma da nossa natureza animal. Provém diretamente do inferno. É puramente espiritual e, em conseqüência, é muito mais mortífero e sutil.

Esta é também a razão pela qual o orgulho pode muitas vezes ser utilizado para derrotar os vícios mais baixos. Os professores, por exemplo, recorrem com freqüência ao orgulho dos seus alunos – ou, como lhe chamam hoje em dia, à sua “auto-estima” – para fazê-los comportar-se decentemente; da mesma forma, muitos vencem a covardia, a luxúria ou o mau gênio porque aprendem a considerá-los “abaixo da sua dignidade” – ou seja, por orgulho. O demônio diverte-se muito com esses casos. Agrada-lhe profundamente ver que nos tornamos castos, corajosos e senhores de nós mesmos desde que, ao mesmo tempo, lhe permitamos estabelecer em nós a ditadura do orgulho, da mesma forma que lhe agradaria imensamente curar-nos de um resfriado se pudesse dar-nos um câncer em troca. Porque o orgulho é um câncer espiritual: devora a própria possibilidade do amor, da felicidade e até do senso comum.

Antes de passarmos adiante, convém precavermo-nos contra alguns possíveis mal-entendidos:

1. O prazer que se experimenta em ser louvado não é orgulho. A criança que recebe uns tapinhas nas costas por ter feito bem a lição, a mulher cuja beleza é louvada pelo namorado, a alma redimida a quem Cristo diz: Muito bem, servo bom e fiel (Mt 25, 21), todas elas sentem prazer com essas palavras de louvor e devem senti-lo. Porque, nesses casos, o prazer não deriva de as pessoas serem isto ou aquilo, mas de terem agradado a alguém a quem queriam agradar, e o queriam com toda a razão. O problema começa quando se passa do pensamento: “Consegui agradar-lhe. Tudo está bem”, para este outro: “Bem, se consegui agradar-lhe, é que no fundo sou bom mesmo!”. Quanto mais nos comprazemos em nós mesmos e menos no louvor, tanto piores nos tornamos. E quando nos comprazemos totalmente em nós mesmos e o louvor não nos importa nada, atingimos o fundo do poço.

É por isso que a vaidade, embora seja o tipo de orgulho que se mostra mais à superfície, é na verdade a forma mais tolerável e compreensível deste vício. O vaidoso anseia em excesso pela admiração, pelo louvor e pelo aplauso, e está continuamente a tentar “pescá-los”. É um defeito, sem dúvida, mas um defeito infantil e curiosamente humilde, pois demonstra que ainda não estamos plenamente satisfeitos com a auto-admiração, que ainda valorizamos os outros o suficiente para querer que olhem para nós. Demonstra, na verdade, que ainda somos humanos.

O orgulho verdadeiramente negro e diabólico surge quando olhamos tão de cima para os outros que não nos importa nada o que pensem de nós. Claro, está muito certo – e às vezes chega a ser um dever – não nos importarmos com o que os outros pensem a nosso respeito, desde que o façamos pela razão correta: porque nos importa incomparavelmente mais o que Deus pensa a nosso respeito. Mas o orgulhoso despreza a opinião alheia por outras razões. “Por que deveria importar-me com o que essa gentalha pensa? Mesmo que as suas opiniões tivessem algum valor, por acaso sou homem para ruborizar-me ao primeiro elogio, como uma debutante no seu primeiro baile? Não senhor, sou uma personalidade plenamente adulta e amadurecida. Tudo o que fiz foi apenas para satisfazer os meus próprios ideais – ou então “a minha consciência artística”, ou “as tradições da minha família”, ou, numa palavra, simplesmente porque pertenço a “essa categoria de homens”. Se o vulgo me admira, o problema é deles; não representam nada para mim”.

Desta forma, um orgulho autêntico e radical pode agir como freio para a vaidade, mesmo porque, como víamos há pouco, o demônio gosta muito de “curar” um defeito pequeno com outro maior. É verdade que não devemos ser vaidosos, mas jamais devemos pedir ao nosso orgulho que entre em campo para combater a nossa vaidade. Mais vale a frigideira que o fogo…

2. Dizemos com freqüência que esta ou aquela pessoa “se orgulha” do seu filho, do seu pai, da sua escola ou do seu regimento, e podemos muito bem perguntar-nos se esse tipo de “orgulho” é um pecado. Penso que a resposta depende do que entendamos por “orgulhar-se de”. Muitas vezes, em expressões como essas, significa apenas: “tem uma calorosa admiração por”. Ora, esse tipo de admiração evidentemente dista muito de ser um pecado. Mas poderia significar que a pessoa em questão assume ares de grandeza por ter tido um pai ilustre ou pertencer a um regimento famoso. Isso já seria um erro crasso, mas ainda assim seria melhor do que se orgulhar simplesmente de si mesmo. Amar e admirar alguma coisa exterior a nós significa sempre que nos afastamos pelo menos um passo do abismo espiritual definitivo, embora não devamos nunca considerar-nos em segurança enquanto amamos e admiramos qualquer coisa mais do que amamos e admiramos a Deus.

3. Não devemos pensar que Deus nos proíbe o orgulho porque se sinta ofendido por esse vício, nem que nos exige a humildade como uma espécie de tributo devido à sua dignidade, como se ele mesmo fosse um orgulhoso. Não, Deus não está nem um pouco preocupado com a sua dignidade. Quer apenas que nos tornemos capazes de conhecê-lo porque deseja entregar-se a nós. É que Deus e nós estamos feitos de tal forma que, se realmente conseguirmos algum tipo de contato com Ele, encontraremos a verdadeira humildade – uma humildade prazerosa, o infinito alívio de nos vermos enfim livres de uma vez por todas desse estúpido blábláblá a respeito da nossa própria dignidade, que tem enchido toda a nossa existência de intranqüilidade e amargura.

Deus só quer fazer-nos humildes a fim de tornar possível essa libertação; só quer tentar aliviar-nos de todos os disfarces feios e inúteis com que nos ataviamos e com que passeamos de cá para lá, empertigados como pequenos palhaços que somos. Eu mesmo gostaria de ter avançado muito mais na humildade do que avancei; nesse caso, certamente saberia descrever muito melhor o alívio e o prazer que experimentamos ao tirar a fantasia, ao livrar-nos do falso “eu”, com todos os seus “Olhem para mim” e “Não acham que sou um bom menino?”, com todas as suas poses e gestos calculados. Chegar perto disso, ao menos por um momento, já é como um copo de água fresca para o caminhante no meio do deserto.

4. Não pensemos que, se encontrarmos alguém realmente humilde, ele se parecerá com o que hoje em dia a maioria chama “uma pessoa humilde”. Não, não será desse tipo untuoso e bajulador que está sempre a dizer que não é ninguém nem conta para nada. Muito provavelmente, pensaremos dele que é apenas uma pessoa alegre e inteligente que se interessa de verdade por aquilo que nós temos a contar-lhe. Se não simpatizarmos com ele, será por sentirmos uma ponta de inveja de alguém que parece desfrutar da vida com tanta facilidade. O certo é que essa pessoa não estará pensando em como ser mais humilde; aliás, não estará pensando em si mesma de forma alguma.

Se alguém quiser adquirir a humildade, penso que ao menos posso dizer-lhe qual é o primeiro passo. Esse passo é compreender que somos orgulhosos. E não é um passo pequeno. Seja como for, não há nada que se possa fazer antes de dá-lo. E se tivermos a impressão de que, afinal de contas, não somos tão orgulhosos assim, é porque somos orgulhosos demais.

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