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Leigos? – Quem inventou isso?

01/04/2010

Publicado no boletim IPVM de 28/03/10 por Rev. Cícero Brasil Ferraz

Um dos grandes problemas que hoje as igrejas enfrentam, infelizmente até mesmo as de teologia reformada, é a satânica e católica medieval palavra “leigos”. Essa palavra, e muito menos a idéia que ela traduz no meio cristão, jamais deverá ser pronunciada. É um câncer que desvitaliza e consome os músculos espirituais da igreja do Senhor Jesus.

Não passo de um leigo” em geral é uma frase proferida com o mesmo tom de autodepreciação presente na frase “sou apenas uma dona de casa”; ou em “nunca frequentei um seminário”; ou em “quem sou eu para apresentar-me a faraó?” (Ex 3.11), ou ainda em “eu sou muito jovem” (Jr 1.7). Trata-se de um hábito criado pela igreja romana do mundo medieval; a maldita visão que destruiu a igreja cristã desde o séc. V até o séc. XVI ao dividi-la em cleigos e leigos. Se não temos um “cartão de apresentação” (II Co 3.13) não podemos ser vistos como importantes ou efetivos dentro do Reino. Trata-se de vício da condição do mundo caído de Adão: se não temos um papel socialmente sancionado de um cargo profissionalmente reconhecido, ou uma posição reconhecida dentro de uma hierarquia familiar ou social, sentimo-nos incapazes e constantemente lamentamos nosso fracasso. Por nós mesmos, sem a graça de Cristo ninguém possui nenhuma “posição”.

A igreja de Cristo – sem exceção – é o LAOS (povo) de Deus preparado pelo Espírito para pregar, ensinar e fornecer direção no caminho cristão, ocupando o nível mais elevado. Somos todos habilitados no curso profissionalmente da graça. Todos estudamos na mesma cartilha e temos o mesmo professor. Os alunos (discípulos) somos todos nós que fomos levados à escola de alfabetização de onde nunca saímos enquanto aqui vivermos. Somos todos alunos – somos todos mestres.

O caminho do discipulado

09/03/2010

Por Rev. Cícero Brasil Ferraz – publicado no boletim nº 10 de 7/março/2010

Vimos no boletim passado que comunicarmos verdades espirituais de forma carnal é o jeito mundano de comunicarmos o estilo de vida cristã. É o mesmo que tentarmos colocar uma roupa da gala em um homicida, como se isso o fizesse melhor.

A congregação local é a comunidade para escutar as ordens de Cristo e a elas obedecer, para convidar pessoas a levar em consideração o convite de Jesus – “Siga-me” – e a Ele atender. Um lugar e uma comunidade para adorar a Deus. É um lugar e uma comunidade onde somos batizados numa identidade trinitária e continuamos a amadurecer “atingindo a medida da plenitude de Cristo” (Ef 4.13) quando podemos receber o ensinamento das Escrituras e aprendemos a discernir as formas pelas quais seguimos a Jesus, o Caminho.

Infelizmente, o que temos visto nas igrejas chamadas evangélicas é o jeito do mundo ser, como seus slogans fáceis de lembrar e imagens arrebatadoras, que denigrem aquilo que é real; e suas formas sistemáticas de lidar com as pessoas desintegram o pessoal, substituindo intimidades por funções. É inegável atualmente que se substitui o caminho de Jesus pelo caminho evangélico, ao qual normalmente nos referimos como substituto do discipulado. Para os cristãos que levam a sério seguir a Jesus, procurando compreender e adotar as formas pelas quais Jesus é o Caminho, essa desconstrução da congregação cristã é demasiado desalentadora e um preocupante transtorno do caminho de Jesus.

A igreja moderna está muito mais preocupada com o “que” faria Jesus do que o “como” faria Jesus. Não posso seguir a Jesus escolhendo qualquer caminho que me agrada. Meu ato de segui-lo deve condizer com sua condução. O caminho que Jesus aponta e o caminho que eu sigo devem ser simbióticos. E essa simbiose não é tratada com seriedade e profundidade suficientes nas igrejas evangélicas do século XXI.

Os evangelistas nos chamam atenção pelo fato de seguirem do que quer que a cultura imponha como carismático, bem-sucedido, rico e de um fluente líder, mas este modelo não é o modelo do discipulado, não é o modelo da cruz.

O poder do mais fraco

07/01/2010

Publicado no boletim IPVM de 10/01/10 por Rev. Cícero Brasil Ferraz

Por vezes penso que Deus inventou a instituição humana da família, como campo de treinamento para nos preparar para conviver com as demais instituições. Não é quando encobrem as diferenças que as famílias dão mais certo, mas quando as celebram.

Uma família saudável edifica os membros mais fracos sem derrubar os mais fortes. Como disse João Wesley: “Qual filho meu eu amo mais? Amo mais o doente até que ele sare, amo o que está longe de casa até que ele volte”.

A família é uma instituição humana sobre a qual não temos escolha. Entramos nele simplesmente por nascer e, como resultado, somos involuntariamente jogados juntos numa coleção de pessoas, sempre iguais com algum ponto, mas muito diferentes de nós em outros. A igreja ainda requer um outro passo: voluntariamente nos juntamos ao estranho bando em razão de um laço comum em Jesus Cristo. Descobri que essa comunidade se assemelha mais à família do que qualquer outra instituição humana. Nela nos reunimos para a Ceia, no Natal ou dominicalmente com as pessoas com as quais mais gostaríamos de conviver. Esta é a verdade…

Creio que sua família é parecida com a minha. Alguns membros são bem sucedidos e outros são miseráveis fracassados; outros são mais bonitos e outros são até estranhos, de tão feios; uns são saudáveis e outros trazem consigo doenças hereditárias; uns são inteligentes outros mais “burrinhos”. As coisas negativas não nos eximem da família; as positivas não os tornam “mais” membro da família que os outros. Ali, na hora do encontro, são todos “farinha do mesmo saco”. Quando todos se assentam em volta da mesa, por exemplo, no Natal, todos são iguais – todos têm o mesmo “gen”, ninguém é rejeitado.

Assim é que devemos nos assentar “à roda da mesa” com os irmãos da família do Senhor. São todos “farinha do mesmo saco”. As nossas diferenças não cancelam nossa membresia; nossos fracassos não nos tornam “menos” membros. O direito é dado por Cristo na cruz.

Se começarmos a enxergar assim, seremos uma comunidade parecida com o céu. Muitas coisas que acontecem aqui em baixo na igreja, acontecerão em quintessência lá em cima, no céu.

Para dentro e para fora

07/12/2009

Publicado no boletim IPVM de 6/12/09 por Rev. Cícero Brasil Ferraz

Deus nos chamou (para dentro do corpo) para nos expulsar para fora (dentro do mundo) para testemunhar o seu nome a um mundo caído e carente de Deus. Muitas de nossas igrejas funcionam como clubes privados, feitos em benefício de seus membros enquanto o Novo Testamento apresenta o modelo de uma igreja cujas atividades existem, principalmente, em benefício dos de fora.

O que nos impede de nos tornarmos a igreja que Deus projetou? Tenho assistido vez por outra um mesmo modelo se repetir: uma igreja começa com altos ideais, gera um turbilhão de atividades e aos poucos modera sua visão, acomodando-se com algo muito inferior ao ideal. Quando eu ficava do lado de fora da igreja, olhando para dentro, encontrava muito para criticar. Mas, uma vez dentro, percebi a dificuldade que é sustentar qualquer coisa parecida com a visão neotestamentária do que deve ser a igreja.

Agora que “dou a minha parcela de contribuição” com as falhas da igreja sou muito mais tolerante com ela. A igreja “frustra-nos até a santidade, ao anunciar uma perspectiva brilhante e, então, nos convidar a participar de uma realidade opaca” (Richard Rohr). Todos somos chamados para fazer a obra do ministério. Mas, a não ser que entendamos a natureza do desafio – os “perigos ocupacionais” do ministério – nós, que estamos na igreja, inevitavelmente nos retrairemos às trincheiras, restringindo a escala de nossa missão de maneira a servimos a nós mesmos e não ao mundo. Ao fazermos isso, tornamo-nos exatamente como todas as outras instituições humanas, e o chamado singular da igreja se desvanea.

Geralmente, quando nos embrenhamos no ministério, há entre nós em “equilíbrio precário” entre a hipersensibilidade e o calo emocional. Alguns permanecem tão hipersensíveis para com a dor que os cerca que acabam sucumbindo àquela dor.

Outros desenvolvem uma “calosidade” que torna o ministério igual a qualquer outro trabalho: Sempre com muito trabalho e pouca recompensa. Infelizmente, nenhum dos dois dura muito tempo imerso na obra do Senhor.